segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Correspondência (Millôr Fernandes)

Correspondência

"Aquele rapazinho escreveu esta carta para o irmão:

Querido mano,
Anteontem futebolei bastante com uns amigos. Depois cigarrei um pouco e nos divertimos montanhando, até que o dia anoiteceu. Então desmontanhamos, nos amesamos, sopamos, arrozamos, bifamos, ensopadamos e cafezamos. Em seguida, varandamos. No dia seguinte, cavalamos muito.
Maninho

O irmão respondeu:

Maninho,
Ontem livrei-me pela manhã, à tarde cinemei e à noite, com papai e mamãe, teatramos. Hoje colegiei, ao meio-dia me leitei e às três papelei-me e canetei-me para escriturar-te. E paragrafrarei finalmente aqui porque é hora de adeusar-te, pois ainda tenho que correiar esta carta para ti e os relógios já estão cincando.
De teu irmão,
Fratelo"

(Millôr Fernandes)



sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Características da notícia

Todo jornal impresso ou televisionado é recheado de notícias, as quais fazem parte do nosso cotidiano e são importantes para nos mantermos atualizados.
O que vem a ser uma notícia? O que ela precisa ter? Como é feita?

 Notícia é um substantivo feminino e tem significado de informação, conhecimento, notificação. No âmbito da imprensa quer dizer o resumo de um acontecimento ou de um assunto.
Portanto, um resumo não pode conter muitas linhas! A notícia deve comunicar o fato e não traçar argumentos sobre ele.
O noticiário na TV ou a notícia no jornal deve responder algumas questões:

1.           “O quê?" - O fato ocorrido.
2.           "Quem?" - O personagem envolvido.
3.           "Quando?" - O momento do fato.
4.           "Onde?" - O local do fato.
5.           "Como?" - O modo como o fato ocorreu.
6.           "Por quê?" - A causa do fato.

A notícia é composta de duas partes: a manchete e o texto.
Manchete: resume a notícia em poucas linhas (2 a 3) e tem o objetivo de atrair o leitor para ler o texto.
Texto: os fatos narrados do acontecimento em questão.


Deste modo, quem escreve notícias deve ser um bom escritor, pois as palavras devem ter combinações tais que atraiam leitores e telespectadores!
Texto adaptado de

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Diferenças entre notícia e reportagem

Notícia

A notícia apura fatos .
A notícia tem como referência a imparcialidade.
A notícia opera em um movimento típico da indução (do particular para o geral).
A notícia atém-se à compreensão imediata dos dados essenciais.
A notícia independe da intenção do veículo (apesar de não ser imune a ela).
A notícia trabalha muito com o singular (ela se dedica a cada caso que ocorre).
A notícia relata formal e secamente – a pretexto de comunicar com imparcialidade.
A notícia tem pauta centrada no essencial que recompõe um acontecimento.

Reportagem

A reportagem lida com assuntos sobre fatos.
A reportagem trabalha com o enfoque, a interpretação.
A reportagem, com a dedução (do geral, que é o tema, ao particular – os fatos).
A reportagem converte fatos em assunto, traz a repercussão, o desdobramento; aprofunda.
A reportagem é produto da intenção de passar uma “visão” interpretativa.
A reportagem focaliza a repetição, a abrangência (transforma vários fatos em tema)
A reportagem procura envolver, usa a criatividade como recurso para seduzir o receptor.

A reportagem trabalha com pauta mais complexa, pois aponta para causas, contextos, consequências, novas fontes.

Informações extraídas de: 


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Trezentas onças (texto de Simões Lopes Neto) - exemplo de variante regional

TREZENTAS ONÇAS

- Eu tropeava, nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim varar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado da troteada.
- Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira… e fui-me à água que nem capincho!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.
- Ah!…esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco mui esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-me para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isto é outra cousa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria pra trás, e olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; - parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para dai a pouco recomeçar.
- Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava as - boas-tardes! - ao dono da casa, agüentei um tirão seco no coração... não senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento de gados que ia levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois uns coriscos tirante a roxo... depois tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre - e ainda hoje, é como vancê sabe... -; estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador, sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
- Então patrício? está doente?
- Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...
- A la fresca!...
- É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele pensar agora de mim!...
- É uma dos diabos, é...; mas não se acoquine, homem!
Nisto o cusco brasino deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...
Ah!... E num repente lembrei-me bem de tudo.
Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi, e, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinto das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma última tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem.
Num vu estava a cavalo; e mal isto, o cachorrinho pegou a retouçar, numa alegria, ganindo - Deus me perdoe! - que até parecia fala.
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.
Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.
Amaguei o corpo e penicando de esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo, já mui comprida.
A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol, muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosas.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto da luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande, em tudo.
O zaino era um pingaço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal; depois o lusco-fusco; depois; cerrou a noite escura; depois, no céu, só estrelas..., só estrelas...
O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar..., lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me da minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo seu nome de Marias, as Três-Marias. - Amigo! Vancê é moço, passa a sua vi-da rindo...; Deus o conserve!…, sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!...
- Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas..., devagarinho, como gateando, subi-ram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caíam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d'água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos:
Quem canta refresca a alma,
Cantar adoça o sofrer;
Quem canta zomba da morte:
Cantar ajuda a viver!...
Mas que cantar, podia eu!...
O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual tinha reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra em peito de gaúcho.
Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; cor-ri as mãos por todos os lados, mais pra lá, mais pra cá...; nada! nada!...
Então, senti frio dentro da alma…, o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armei-lhe o gatilho..., benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...
- Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!...
- Patrício! não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho tão fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.
E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das cousas. Agora... era vender o campito, a ponta de gado manso ¾ tirando umas leiteiras para as crianças e a junta dos jaguanés lavradores - vender a tropilha dos colorados… e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse a conta..., enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!
E d'espacito vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou, mastigando o freio.
Desmaneei-o, apresilhei o cabresto; o pingo agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.
Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou, com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o - Louvado seja Jesu-Cristo; boa-noite! - e entrei, e comigo, rente o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quatro paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saía; corria o amargo.
Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana, estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com as trezentas onças, dentro.
- Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal le foi de susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei-me rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva, arrolhadito aos meus pés...




sábado, 18 de maio de 2013

A ciência da Educação


A ciência da educação

Estudantes brasileiros apresentam projetos que estudam questões relacionadas à educação em feira internacional de ciências

Em tempos em que apenas 2% dos jovens brasileiros se interessam pela carreira docente, é com boas vindas que as feiras de ciências do país recebem projetos da área de ciências humanas que mostram preocupação com a educação, seja no âmbito da sala de aula ou na busca de soluções que extrapolem os muros da escola.
Quatro desses projetos apresentados este ano nas duas maiores feiras do país, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) e a Mostra de Ciência e Tecnologia (Mostratec), foram selecionados para disputar a edição 2013 da Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF), a maior feira pré-universitária de ciências, que acontece nesta semana, em Phoenix, nos Estados Unidos.
"Participar da ISEF era um sonho para mim", revela entusiasmado Túlio Vinícius Andrade Souza, estudante de Recife e autor do projeto Educação física escolar: soluções pedagógicas para as principais dificuldades encontradas pelos professores da Educação Básica. Apesar de contar não ter recebido apoio da escola onde estudou, o jovem não desistiu do sonho e buscou orientação fora do ambiente escolar para realizar a iniciação científica, cujo objetivo era analisar a influência da escola no comportamento dos alunos em relação à saúde e ao sedentarismo.
Embora a educação física seja uma das disciplinas mais adequadas para trabalhar estes temas, Túlio constatou que suas condições de ensino são bastante precárias e buscou descobrir as principais dificuldades que os professores encontram. Para isso, ele elaborou um questionário que foi respondido por 20 professores de educação física da região metropolitana de Recife, sendo dez da rede pública, cinco da rede particular e cinco que lecionam em ambas as redes. A enquete apontou três problemas como os mais recorrentes: a falta de materiais, a infraestrutura precária e o desinteresse dos alunos.
Com os resultados em mãos, o estudante do 3° ano do ensino médio criou soluções pedagógicas que integrassem os alunos à aprendizagem. Durante três meses ele aplicou uma sequência didática com 45 alunos do 2° ano do ensino médio de uma escola particular para testar a eficácia da estratégia desenvolvida. "Os participantes responderam a questionários antes e depois das atividades desenvolvidas e pude perceber uma mudança comportamental e na percepção dos alunos em diversos aspectos", explica Túlio.
Para divulgar os resultados à comunidade escolar, Túlio desenvolveu uma cartilha com nove sequências didáticas, que traz temas como inclusão social, educação ambiental, a criação de materiais alternativos como ferramenta pedagógica, entre outros. Com a ajuda de sua orientadora, Gilvani Alves, gerente regional de Educação, Túlio submeteu o material à Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco, que está trabalhando no desenvolvimento da cartilha para ser usada na rede. O estudante pode também fazer uma palestra de capacitação com 19 professores, que já estão aplicando as soluções em aula. "Eu quero que o professor possa criar novas sequências de acordo com a dificuldade que ele encontrar. A educação física não é vista como as outras disciplinas; falta um livro que guie o professor, formação continuada e apoio pedagógico", enfatiza.

Integração entre áreas

Ao contrário de Túlio, Bianca Spina Papaleo, estudante do 3° ano do ensino médio do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, recebeu todo o respaldo da escola para dar andamento ao projeto Construindo pontes: ampliando o olhar dos professores em relação aos transtornos mentais entre estudantes, para o desenvolvimento de melhor convívio escolar. A escola teve, aliás, um papel fundamental que levou Bianca a escolher pesquisar esse tema. Quando estava no 9° ano do ensino fundamental, a estudante teve um princípio de um distúrbio alimentar, identificado por uma professora de português que avisou a família da aluna. "Foi identificado tão rápido que eu não tive que fazer tratamento. Como eu tive essa oportunidade, quis dá-la a outras pessoas", conta.
O objetivo do projeto era encontrar uma forma com que os professores percebessem em sala de aula sinais que identificam alunos com transtornos mentais.  O primeiro passo foi criar um pré-teste para avaliar o conhecimento prévio dos professores acerca de alguns transtornos.
Bianca usou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - IV), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, que lista diferentes categorias de transtornos mentais e características para identificá-los, para avaliar o quanto os professores sabiam a respeito desses transtornos. Anorexia, bulimia, transtorno obsessivo- compulsivo (TOC), transtorno de ansiedade e depressão formam um grupo que os professores conhecem mais e têm mais facilidade para identificar características. Já em relação à esquizofrenia, abuso de álcool, transtorno bipolar e transtorno de oposição e desafio os professores demonstraram ter menos conhecimento.
Em um segundo momento, Bianca criou um protocolo combinando prevalência, risco e frequência dos transtornos para aumentar a possibilidade de identificação precoce dos portadores de modo que a escola organize um sistema de prevenção, em que o professor observa um sinal amarelo, alerta a orientação educacional que entre em contato com a família, sugerindo, se necessário, a intervenção de um especialista e criando, assim, uma ponte entre alunos, professores, orientação educacional, família e especialistas.
"Alguns professores, no entanto, não tem as ferramentas necessárias para fazer isso", reconhece Bianca. Por isso a estudante realizou em sua escola uma palestra e um workshop interativo, procurando reforçar os pontos mais importantes do protocolo. O próximo passo é criar cursos de capacitação com estudos de caso dentro do próprio ambiente escolar. "Estamos pensando em como fazer esse treinamento. Eu também quero acompanhar os professores no dia a dia para ver se eles têm observado os alunos", planeja Bianca.

Jovens cientistas
Além dos projetos de Túlio e Bianca, outros dois projetos relacionados ao universo educacional participam da ISEF: Can Game, dos estudantes Hitallo Cavalcanti, Luiz Reis Neto e Thiago Pedrosa, que surgiu com o intuito de desenvolver um jogo multidisciplinar voltado para o autismo, e Pesquisa na web por discentes de iniciação científica júnior: uma análise sobre as fontes de informação online utilizadas, de Sandro Bertelli, cujo objetivo era identificar a necessidade de ampliar investimentos em processos educativos que dêem condições para os estudantes usarem corretamente os dados e informações online.
A delegação brasileira é formada por 28 alunos de diversas partes do país, de escolas públicas ou particulares. Realizada desde 1950, a Intel ISEF reunirá mais de 1600 jovens cientistas que disputam prêmios em dinheiro e bolsas de estudo nas mais renomadas universidades do mundo.
Em 2012, o principal destaque brasileiro foram os estudantes Eduardo Thadeu Rodrigues e Juliana Hoch, de Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Com oprojeto Facilitando a conservação da vida - Alternativas de separação de Ácido Lactobiônico e Sorbitol, que busca uma alternativa de separação dos dois compostos que são utilizados nos líquidos que conservam a estrutura celular dos tecidos, os jovens cientistas conquistaram o terceiro lugar do prêmio Grand Award, na categoria Bioquímica, e o quarto lugar no prêmio "American Chemical", cada prêmio no valor de US$ 1.000,00.


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Muito barulho por nada


Muito barulho por nada

Eu vivo a observar minha vizinhança, onde há pessoas de bom coração e bem divertidas. Pensei, então, que um dos fatos ocorridos com elas poderia dar uma ótima crônica. Sentei em frente ao meu computador e comecei a lembrar de um caso que vi outro dia...
Esqueci-me de dizer com quem se passou esse caso. Sou morador de um prédio onde também mora, e é faxineira, dona Ana, uma senhora muito fofoqueira. Ela tem uma filha chamada Fernanda, universitária que cursa Letras e não fica atrás nas fofocas.
Todos os dias, aqui na rua seu João, um catador de recicláveis muito gente boa, junta-se as duas para falar de tudo que se passa e de todos que passam na rua.
Voltemos ao caso. Estava acontecendo uma certa “confusão” na casa vizinha. E lá estavam os três a fofocar.
– Mãe, o que que tá acontecendo ali?
– Oxe, minha fia, só pode ser um fuzuê desgramado! Disse dona Ana esticando o pescoço para tentar ver o que se passava. Nesse instante, chega seu João:
– É mermo! Deve de ser bagunça, cadiquê aquele povo vive arrumano confusão.
– Olhe lá o vizim no maió aperrei... Duvido que ele não pegou a muié dele com outro caba. Fiquei sabenu que ele tava mei cabreiro com ela.
– É mesmo, mãe! Me falaram que ele tava desconfiado dela com o irmão! Acredita?
– Eu
– Eu já ovi uas história assim... O marido até mato a mulé por causo disso.
– Será que ele bateu nela? Escuitei um salcero essa noite... Boa coisa num é!
– Eu vi eles compranu uas bebida. Deve tudo ter bibido até rumar essa confusão aí ó...
– É verdade, mas é mió nóis pregunta pro povo aí da rua. Oxente! Vai que dá um tiro, sei lá...
– Isso! Os três concordaram.
– Ei, mininu!
– Diga, dona Ana...
– Sabe que fuzuê é aquele ali? Tá um entre e sai de gente danado...
O rapaz, conhecendo bem os três, olha-os com um sorriso irônico no rosto e responde:
– Sei sim... é que tá rolando uma festa. Eles tão comemorando porque a moça tá grávida...

T. P., Turma 1901


O homem do telhado


O homem do telhado

Quando a gente passa em conjunto residencial e olha para o teto dos edifícios, fica pensando que está passando numa estação espacial e que todas aquelas antenas são instrumentos de comunicação com Marte, Vênus, Júpiter e outros planetas.
 Conjunto residencial é aquele local em que construíram 1.200 apartamentos, num só edifício, ao lado de outro edifício com 1.400 apartamentos e na frente de outro edifício com mais ou menos uns 1.800 apartamentos, que eles chamam de bloco. Todos com televisão e todos com antena no telhado.
 Vai daí que, olhando para baixo, parece a entrada do prédio das Nações Unidas. Todas as janelas têm bandeiras. Bandeiras em forma de meia, de calcinha, de ceroulas e anáguas. E no telhado, parece aquela estação espacial que a gente falou. Só que em vez de foguete, tem sempre um gato deitado ou uma pipa.
E quando o dono do apartamento 1.191 chamou o antenista para colocar sua antena no telhado, o homem se viu mal. Subiu lá e quando olhou o negócio pensou até em instalar a antena no teto do vizinho. Vai daí ele conseguiu colocar a antena bem na beirinha, em boa posição e miseravelmente dava pra assistir a meia hora de Chacrinha sem que a televisão virasse de cabeça para baixo.
 Mas, infelizmente, não demora muito e quando menos a gente espera, a voltagem cai, a corrente modifica e a dona boa que a gente tá vendo no vídeo vira aprendiz de monstro.
 E foi por isso que o nossa amizade, morador no apartamento 1.191, mandou chamar o antenista. Era um rapazinho com pinta de criado na república da Praia do Pinto, magrinho e com mais ginga que pato sozinho em galinheiro de franga. Ele foi chegando e explicando o babado todo:
 — O morador deve entender as mumunhas. Quando passa um ônibus elétrico, a corrente cai e adefeculta a mensagem no vídeo. Às vêis é preciso um reajuste, pra que a seletora da canalização das image fica clara outra vez.
O dono da televisão não entendeu nada, aliás, nem eu, mas ele queria era a imagem boa e o problema deveria ser antena. O rapazinho subiu para o telhado e meia hora depois voltou:
 — O senhor vai desculpar, mas eu não posso fazer o serviço, não senhor.
 — Ué, mas por quê?
 — Bem, é por causa de que a antena está muito na beirinha.
 — E daí, ó meu??
 — Daí, meu distinto, eu tô fora. Se eu chegar muito na beira eu entro no ar e quem tem que entrar no ar é a estação, não sou eu.
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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto). Fonte: O MELHOR DE STANISLAW - Crônicas Escolhidas - Seleção e organização de Valdemar Cavalcanti - Ilustrações de JAGUAR - 2.a edição - Rio - 1979 - Livraria José Olympio Editora.